Nossa última transa foi corrida. Abafada, desesperada. Nós dois parecíamos estar mais brigando do que de fato transando. Na época eu não entendi, nem se quer parei para reparar; eu estava chateada e você também. Hoje eu percebo que nós dois estávamos mais nos libertando do que nos amando no sofá da tua casa. E eu saí tão rápido aquele dia, batendo a porta atrás de mim, que te peço desculpa pela minha imensa falta de educação – e consideração. Nós tínhamos tanta coisa para discutir e resolver, mas preferíamos afogar isso por entre os beijos e os gemidos dolorosos. Nossa última transa foi apenas isso; o fim, mas instaurou um reinando de saudade e questionamentos logo depois.

Aposto que se você parar para pensar, vai acabar concordando comigo que ao longo do tempo juntos nós deixamos a desejar. Nós pecamos nas primeiras coisas, e nos preocupamos com detalhes que não eram nem de longe mais importante do que simplesmente segurar a mão um do outro. O ressentimento foi regado aos poucos, crescendo e se alastrando e fomos tornando-nos dois estranhos que ainda se amavam quando transavam. Era o que restava de nós; o calor, o momento, a entrega. E a raiva. E a mágoa. E o sentimento de estar se negligenciando. E isso não tinha volta. Cada vez que transávamos com toda aquela entrega, mas com aquela mágoa também, era um passo a mais no final da nossa jornada. Aquele sábado a tarde na tua casa, na sala, foi só o último prego no caixão. O clima fúnebre no final entregou isso.

Deixamos de conversar com as palavras e passamos a nos falar apenas nos silêncios do escuro. É triste saber que nenhum de nós sabia se expressar e muito menos, conversar. Nossa última transa marcou um período de transição para nós dois, e amadurecimento também. Tenho boas lembranças, no final das contas. Até mesmo daquele dia no sofá, que apesar de rápido e frívolo, marcou-me a alma como um lembrete do que eu não quero mais para mim. Espero que você tenha te marcado também.